A reader lives a thousand lives before he dies, said Jojen. The man who never reads lives only one. (George R. R. Martin)
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domingo, 21 de junho de 2015

O Principezinho


 Foi então que apareceu a raposa.
- Olá, bom dia! - disse a raposa.
- Olá, bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
(…)
- Ando à procura de amigos. O que é que “estar preso” quer dizer?
- É uma coisa que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. - Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços – disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas.Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...
(...)

Junho é o mês das crianças e, como tal, resolvi colmatar uma falha imperdoável na minha cultura literária. 
Sim, eu nunca tinha lido O Principezinho! (Podem bater-me, eu deixo) Ontem à tarde resolvi que era o dia e que não ia passar mais tempo... 

O Principezinho... A Flor... A Raposa... O cliché que deveria ter lido isto há uns anos... Tudo verdade! O livro infantil que deixa os adultos a pensar nas palavras e gestos, mas acima de tudo no que não está escrito e ficou subentendido...

Fiquei fascinada! 

As pessoas crescidas têm sempre necessidade de explicações... Nunca compreendem nada sozinhas e é fatigante para as crianças estarem sempre a dar explicações.

A complexidade do texto, com palavras tão simples, descrevendo o mundo das pessoas crescidas em plena II Guerra Mundial toca-nos e transportamos todas aquelas palavras para o mundo de hoje e compreendemos que ainda se aplicam...

Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

sábado, 6 de junho de 2015

Em Parte Incerta


Quando penso na minha mulher, penso sempre na sua cabeça. Para começar, na sua forma. Da primeira vez que a vi, foi a nuca que vi primeiro, e havia qualquer coisa de adorável nos ângulos que formava. Como um grão de milho duro e lustroso ou um fóssil no leito de um rio. Ela tinha aquilo que os vitorianos diriam ser uma cabeça primorosamente modelada. Deixava adivinhar facilmente o crânio.
Reconheceria a sua cabeça em qualquer lugar.
E o que está dentro dela. Também penso nisso: na sua mente. No seu cérebro, com todas aquelas circunvoluções, e os seus pensamentos a percorrerem-nas como centopeias velozes e frenéticas. Como uma criança, imagino-me a abrir-lhe o crânio, a desenrolar-lhe o cérebro e a vasculhá-lo, tentando agarrar e imobilizar os seus pensamentos. Em que estás tu a pensar, Amy? A pergunta que mais vezes fiz durante o nosso casamento, mesmo que a não tenha feito em voz alta, mesmo que a não tenha feito à pessoa que podia responder. Suponho que estas perguntas surjam como nuvens ameaçadoras sobre todos os casamentos: Em que estás a pensar? O que estás a sentir? Quem és tu? O que é que fizemos um ao outro? O que é que vamos fazer?

Vamos começar a ler um livro. Não sabemos nada sobre ele, ou sabemos muito pouco. Não conhecemos a estória que se vai desenrolar, apenas algumas linhas gerais. Fazemos perguntas a nós mesmos sobre os personagens que vamos conhecer nas próximas horas ou dias... 
Então começamos a ler e começamos a conhecer os personagens. Um casal na manhã do aniversário de casamento. Uma perfeita vida a dois. Cinco anos de vida em comum. 

Quem és tu? O que estás a sentir? Em que estás a pensar?
É assustador terminar a leitura de um livro e não conhecer a resposta a estas simples perguntas feitas logo nas primeiras linhas deste livro. O facto de não descobrirmos a resposta levanta ainda mais perguntas.

Há muito tempo que queria ler este livro. Muita gente me dizia que o final era estranho. A palavra que eu utilizaria para o descrever é aterrador! É impensável de prever! Completamente doentio! Assustadoramente humano!

Um livro brilhante, dos melhores que li nos últimos tempos não só pela escrita envolvente e simples mas principalmente pela capacidade de surpreender. Se por um lado sempre achei que era pouco provável que Nick tivesse realmente morto Amy, a certa altura também notei que havia falhas em tudo o que ele contava. No entanto, estava longe de imaginar toda a origem da "tramóia" e o principal motivo. 

Flynn mostra duas pessoas pessoas que partilham uma casa e uma vida mas que não se conhecem realmente. É assustador pensar se, apesar de todas as situações descritas levadas ao extremo, realmente conhecemos as pessoas que estão ao nosso lado diariamente. Será que somos assim tão transparentes? Ou se, pelo contrário, apenas vemos (e mostramos) aquilo que queremos ver e que os outros querem que vejamos.

Com o distanciamento do final da leitura, e depois de também ter visto o filme, já consigo dizer que adorei o livro. Mas percebi que me deixou a pensar...

Aconselho realmente a sua leitura, mas preparem-se para uns quantos murros no estômago ao longo das quinhentas páginas ;) (e não serão só um ou dois...)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Orgulho e Preconceito


Após alguns minutos de silêncio, Darcy aproximou-se dela e, extremamente agitado, disse:
- Em vão lutei. De nada serviu. É impossível sufocar o que sinto. Tem de me consentir que lhe diga como a admiro e amo ardentemente.
O espanto de Elizabeth foi além de toda a expressão. Arregalou os olhos, corou, não quis acreditar e ficou calada. 
Darcy considerou esse silêncio como um suficiente encorajamento e, assim, logo confessou tudo o que havia muito por ela sentia. Exprimia-se corretamente, mas tinha sentimentos a expor além dos que o coração lhe inspirava, e ele não era mais eloquente a falar de ternura do que a respeito de orgulho. (...)
Apesar da sua antipatia profundamente enraizada, Elizabeth não podia ficar insensível à homenagem que o afecto de tal homem reprensentava e, embora nem por um instante sequer as suas intenções se modificassem, ficou de início com pena do desgosto que lhe ia infligir. (…)
- Em casos como este, suponho que é regra estabelecida exprimir os sentimentos de gratidão pela honra que nos é conferida, mesmo que eles sejam correspondidos de maneira diferente. É natural que se sinta gratidão por tal e, se estivesse na minhas posses sentir-me grata, agradecer-lho-ia agora. Mas não posso. Nunca aspirei a merecer-lhe uma boa opinião e o senhor decerto concedeu a sua muito contra vontade. Lamento contristar seja quem for. (...)

Orgulho e Preconceito. O Clássico. Tens de ler!
Será mesmo assim? Para mim não! Lamento se estou a desiludir os amantes de Austen e os fieis seguidores de Darcy e Elizabeth, mas esta é a minha opinião.

Não vou dizer que odiei o livro porque não seria de todo verdade. Mas também não fiquei completamente rendida à narrativa e à escrita. É certo que os Clássicos não são as minhas leituras de eleição, mas também não são livros que coloque completamente de parte. O facto é que a escrita por vezes torna-se monótona e as descrições características deste tipo de livros é sempre algo que me deixa de pé atrás. Isto faz com que seja um livro de leitura lenta e, em cartas partes, um pouco arrastada. Confesso que no início do livro, por algumas vezes, estive tentada a pô-lo de parte, mas obriguei-me a continuar e a leitura foi ficando mais agradável à medida que ia avançando. Mas não tanto que me fizesse suspirar por mais, infelizmente. 

Gosto, no entanto, das críticas sociais implícitas neste tipo de livros e de conhecer as sociedades de época dos diferentes países, de acordo com os autores. Também o facto de este livro ter sido escrito por uma mulher em pleno século XVIII me despertava alguma curiosidade. 
É um facto que, no século XVIII, um dos principais objectivos de uma mãe era que as filhas tivessem um bom casamento. Numa casa onde existiam cinco filhas e nenhum filho, essa necessidade estava multiplicada por cinco... O que é certo é que Austen pretende desviar um bocadinho esta "obsessão" do ponto central da narrativa, explorando um lado mais liberal e romântico na mulher, tornando-a, também, mais independente. De facto, esta característica é que vai fazer despertar o amor de Darcy por Elizabeth.
Ok, até simpatizei com Bingley e Darcy, apesar dos mal-entendidos entre os dois. Jane e Elizabeth também me conseguiram arrancar sorrisos em diversas partes, muito mais que as irmãs, mas nada mais.

Por agora, deixo de parte os Clássicos de Austen, mas, quem sabe um dia, lhe volte a dedicar algum tempo e aí consiga ficar rendida a esta mulher um tanto ou quanto avançada para a época em que viveu.

O Prisioneiro do Céu


Segundo a minha experiência pessoal, quando alguém descobria aquele local, a sua reacção era de encantamento e assombro. A beleza e o mistério do recinto reduziam o visitante ao silêncio, à contemplação, ao sonho. Como é óbvio, a reacção de Fermín teve de ser diferente. Passou a primeira meia hora hipnotizado, deambulando como um possesso pelas passagens do enorme quebra-cabeças que era o labirinto. Parava para bater com os nós dos dedos em arcobotantes e colunas, como se duvidasse da sua solidez. Detinha-se em ângulos e perspectivas, fazendo um telescópio com as mãos e tentando decifrar a lógica da estrutura. Percorria a espiral de bibliotecas com o seu considerável nariz a um centímetro da infinidade de lombadas alinhadas em suas sem fim, escrutinando títulos e catalogando tudo quanto descobria. Seguia-o a poucos passos, entre o alarme e a preocupação.
Começava a suspeitar que Isaac nos expulsaria a pontapés, quando, numa das pontes suspensas entre as abóbadas de livros, choquei com ele. Para minha surpresa, não só não se lia no seu rosto qualquer sinal de irritação como sorria bem-disposto, ao contemplar os progressos que Fermín ia fazendo na sua primeira exploração do Cemitério dos Livros Esquecidos.
— O seu amigo é um espécimen bastante peculiar - observou Isaac.

— Não sabe o senhor a que ponto.

Barcelona, 1957.
Voltamos à "actualidade", ou seja, voltamos a encontrar Daniel Sempere e Fermín Romero de Torres na livraria Sempere e Hijos que conhecemos em A Sombra do Vento. 
Tudo o que senti falta em O Jogo do Anjo está de volta, tanto os personagens principais como o humor fantástico de Fermín. Mas agora temos uma perspectiva diferente da vida de Daniel, visto termos conhecido o passado dos seus pais.

O livro anterior, dando um salto no tempo, permite fazer a ponte entre o passado e o presente, a respeito da existência de Daniel. Mas e Fermín? O misterioso personagem que "caiu do céu" em A Sombra do Vento, que se tornou amicíssimo tanto do senhor Sempere como do seu filho Daniel, que descobriu o amor nos braços da Bernarda... Quem é este homem afinal? Será que foi assim tão ao acaso que tropeçou na vida de Daniel e foi trabalhar para a livraria? Que segredos afinal esconde Fermín? 

Em O Prisioneiro do Céu conhecemos a história de vida de Fermín, e podemos fazer a ponte entre este livro e o Jogo do Anjo.

Apesar de ter sido, dos três o que menos gostei, adorei conhecer a difícil vida de Fermín e é pena que esta fantástica saga não tenha ainda o seu desfecho. Ficam muitas questões em aberto e, talvez tenha sido esse o facto que mais contribuiu para a classificação mais fraca que dei a este livro.
Ainda assim, continuo rendida à escrita e ao estilo de Zafón e recomendo este livro tal como os anteriores.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Amor e Chocolate


- Que diz a Jen de tudo isto? - perguntou o Eric depois de ouvir a minha saga.
(…)
- O que eu não percebo é como tu, a Martha e até a Renée se aperceberam que havia qualquer coisa entre mim e o Greg, quando a Jen e o Matt, os nossos amigos mais chegados, parecem não ter dado por nada.
O Eric beberricou um pouco de cerveja.
- Lembras-te daquele episódio das Novas Aventuras do Super-Homem em que aparecia o Tempus, o vilão que conhecia a identidade secreta do Super-Homem, e em que entrava o H.G: Wells? E lembras-te de quando o Tempus disse à Lois algo como «O que ninguém consegue perceber é como alguém pode ser estúpido à uma escala tão galáctica», porque durante anos ela não descobrira que o Clark era o Super-Homem?
Estranhamente, lembrava-me.
- Achas que o Matt e a Jen são estúpidos à escala galáctica?
- Não. Como H. G. Wells lhe fez notar, a Lois «não queria ver a verdade», ou algo parecido. As pessoas são óptimas a ignorar coisas óbvias. Trata-se de um mecanismo de defesa contra coisas que afectam as suas vidas. Passa-se o mesmo com o Matt e a Jen. Bom, pelo menos com a Jen. O Matt provavelmente não deu por ela porque é gajo. Mas a Jen... Se ela quisesse saber que tu e o Greg estão apaixonados, sabê-lo-ia.

Há já alguns anos que não lia nada desta autora, mas depois de me ter apaixonado pelas suas estórias e personagens em A Filha da Minha Melhor Amiga e Pedaços de Ternura deixei-me conquistar novamente com este Amor e Chocolate.

A simplicidade quer da escrita quer dos personagens e das suas vidas tocam-nos por serem situações reais que nos podem acontecer a todos de uma forma ou outra. Diverti-me imenso e ainda soltei umas boas gargalhadas à conta do bem-disposto Greg.

Conhecida pelos seus dramas, desta vez Koomson deixou de lado o sofrimento das doenças ou de perdas importantes, e apresenta-nos um romance bem "docinho" com muito chocolate :) 

Uma leitura leve, ótima para um dia de praia, no verão, ou uma tarde no sofá com um aquecedor e uma bebida quente, no inverno... Aconselho! 

sábado, 8 de novembro de 2014

Misery



Porque o argumento e o momento crucial da intriga de Carros Velozes implicava o acidente muito grave de Tony Bonasaro no seu último e desesperado esforço para escapar à Polícia (o que conduzia ao epílogo, o interrogatório de Tony, no seu quarto de hospital, efectuado pelo parceiro do falecido tenente Gray), Paul tinha entrevistado um certo número de vítimas de acidentes de estrada. E havia obtido sempre a mesma resposta. As formas diferiam, em verdade, mas no fim de contas chegava sempre ao mesmo ponto: Recordo-me de ter entrado na viatura, e recordo-me de ter acordado aqui, mas de nada do que se passou entre esses dois tempos.
Porque infelicidade não lhe acontecera a ele o mesmo?
Porque os escritores se lembram de tudo, Paul. Em particular o que os faz sofrer. Põe um escritor em pelo, dá-lhe voltas a todas as cicatrizes, e ele contar-te-á em pormenor a história da mais pequena delas. As grandes estão na origem dos romances, mas não a amnésia. É da maior utilidade ter um pouco de talento para se tornar escritor, mas a única coisa absolutamente indispensável é a capacidade de se lembrar da origem da menor cicatriz.
A arte é a persistência da memória.

Depois de me ter rendido à fantasia, de devorar policiais e thrillers e de ter passeado um pouco pelo suspense e sobrenatural, tinha de experimentar o terror... 
E nada melhor que o mestre Stephen King para estreia!

Já há algum tempo que tinha curiosidade em ler qualquer coisa deste senhor e depois de uma pesquisa percebi que este era um dos melhores cotados e também daqueles que mais me recomendaram...

Fiquei completamente rendida! A escrita é simples e fluída e prende-nos de tal forma que damos por nós a temer a próxima conversa entre os protagonistas ou a desejar que ele se consiga libertar da prisão em que ela o mantém. 
Amei, na parte inicial (onde é mais visível), os parágrafos começados com os pensamentos Paul mas que depois seguiam os de Annie e mais tarde voltavam a Paul, sempre com assuntos completamente diferentes mas ligados entre si.

O final, apesar de ser um tanto ou quanto previsível, transporta-nos a uma cruel realidade e fica-se a pensar até que ponto uma pessoa pode viver traumatizada após enfrentar situações de perigo extremas. 

Sem dúvida, um livro cinco estrelas e um autor que merece que lhe dê mais "tempo de antena" por aqui, o que se traduz em mais leituras ;)

Recomendo!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O Terceiro Gémeo


Um Datsun branco ferrugento, com um dos faróis partidos e remendado com fitaisoladora, atravessou um bairro operário de brancos a norte do centro da cidade. O carro não tinha ar condicionado e o condutor abrira todas as janelas. Era um jovem bonito de vinte e dois anos, com calções cortados de umas calças de ganga,uma t-shirt branca e um boné vermelho de basebol com a palavra SEGURANÇA escrita em letras brancas à frente. Sob as coxas, a napa do assento encontrava-se escorregadia do suor, mas ele parecia não se incomodar. Estava bem-disposto. 
(...)
Um jovem aproximou-se dela.
- Foi um grande jogo! - exclamou ele com um enorme sorriso.
Jeannie avaliou-o com um único olhar. Era um borracho: alto, atlético, cabelo louro encaracolado bastante curto e bonitos olhos azuis. Naquele momento, estava a atirar-se a ela a todo o gás.
Não se sentia com disposição.
- Obrigada - respondeu, lacónica.
Ele tornou a sorrir, um sorriso descontraído e confiante, que dizia que a maior parte das raparigas ficava feliz quando ele lhes dirigia a palavra, independentemente de fazer ou não sentido.
- Eu também jogo um pouco de ténis, e estava a pensar...
- Se só jogas um pouco de ténis, provavelmente jogas pior do que eu - ripostou Jeannie, passando por ele. 
(...) 
- Porque é que está tão certa de que tenho um irmão gémeo?
- Criei um programa de computador que procura pares nos registos médicos e noutras bases de dados. Os gémeos univitelinos têm ondas cerebrais, eletrocardiogramas, impressões digitais e dentes semelhantes. Investiguei uma grande base de dados de radiografias dentárias feitas por uma companhia de seguros de saúde e descobri uma pessoa que tem os dentes e o formato da arcada muito parecidos com os seus.
- Isso não é conclusivo. 
- Talvez não, embora ele tenha cavidades nos mesmos sítios que você.
- Então quem é o rapaz? 
- Chama-se Dennis Pinker.
- E onde está agora? 
- Em Richmond,na Virgínia.
(...)
Depois de me ter rendido por completo aos romances históricos deste senhor, tinha curiosidade em ler outros livros do autor. Ao pesquisar os vários títulos, este despertou-me a atenção por vários motivos, mas também era dos que tinha opiniões mais controversas... Como em diversas ocasiões, decidi-me por um livro que dá que falar...

Ao começar a ler, percebi que o talento de escrita e conhecimento de Ken Follett não se fica pela História. Neste livro acompanhamos de perto um dos temas mais controversos e polémicos da Ciência, a clonagem. Ao perceber o quão profundo Follett chega no desenvolvimento do assunto, entendi o porquê das opiniões contraditórias, pois o livro torna-se um tanto ou quanto específico, com explicações detalhadas. Para mim, que tenho conhecimentos na área, foi uma agradável surpresa perceber o quão avançada estava a mente do senhor e as perspectivas científicas em 1996 (ano de publicação do livro, apesar de só ter sido traduzido para português em 2011).

Foi um livro que devorei por completo desde a primeira página! Será que são mesmo gémeos? Quem será o terceiro gémeo? Será que o gémeo bom é assim tão exemplar? Ou será que está a esconder a sua verdadeira personalidade? Será que no mundo em que vivemos houve (ou há) experiências deste tipo ou parecidas? Estas foram algumas das perguntas que me surgiam à medida que avançava na leitura e que tive de esperar mesmo até ao final das quinhentas páginas (sim o senhor só escreve calhamaços) para ter algumas respostas.

Acima de tudo, recomendo esta leitura! ;)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O Oito



Sinopse 
Conta a lenda que os Mouros ofereceram a Carlos Magno um tabuleiro de xadrez que continha a chave para dominar o mundo.

Sul de França, 1790. No auge da Revolução Francesa, o lendário tabuleiro de xadrez de Carlos Magno, oculto há mais de um milénio nas profundezas da Abadia de Montglane, corre o risco de ser descoberto. As suas peças encerram um intricado enigma e quem o decifrar terá acesso a uma antiga fórmula alquímica que lhe concederá um poder ilimitado. Para mantê-las fora do alcance de mãos erradas, as noviças Mireille e Valentine deverão espalhá-las pelos quatro cantos do mundo.
Dois séculos depois, Catherine Velis, uma jovem perita informática, é enviada para a Argélia com o objectivo de desenvolver um software para a OPEP. Nas vésperas da sua partida de Nova Iorque, um negociante de antiguidades faz-lhe uma proposta misteriosa: reunir as peças de um antigo xadrez. Cat vê-se assim envolvida na busca do lendário jogo de xadrez e torna-se numa das peças desta partida milenar, jogada ao longo dos séculos por reis e artistas, políticos e matemáticos, músicos e filósofos, libertinos e o próprio clero. Quem está de que lado? De quem será o próximo lance?


Passado e presente entrecruzam-se magistralmente neste thriller excepcional de uma autora de culto em todo o mundo, considerada a grande precursora dos romances de Dan Brown.



Desconhecia por completo esta escritora até uma amiga me ter falado neste livro e me ter influenciado de tal modo que quando o encontrei em promoção (a metade do preço normal) não resisti em trazê-lo para casa... 
Não o comecei de imediato, mas passado pouco tempo não resisti, deixando outros em stand by mais algum tempo...

No início estava muito entusiasmada e devorei as páginas iniciais, mas à medida que ia avançando comecei a ficar desiludida. O livro é bom, os personagens interessantes e o enredo também. O problema eram os saltos no tempo entre os séculos XVIII e XX que começaram a aborrecer-me. Por um lado, queria saber a história do tabuleiro de Xadrez depois de ter sido retirado da Abadia, mas por outro estava demasiado "presa" aos personagens atuais e ao jogo perigoso que iam jogando entre si. A dada altura, senti que estava a ler dois livros ao mesmo tempo...

Contudo, é um bom livro para os amantes do género e curiosos do xadrez e da história ;)

sábado, 26 de julho de 2014

The Fault in Our Stars


" (...) If you go to the Rijksmuseum, which I really wanted to do- but who are we kidding, neither of us can walk through a museum. But anyway, I looked at the collection online before we left. If you were to go, and hopefully someday you will, you would see a lot of paintings of dead people. You'd see Jesus on the cross, and you'd see a dude getting stabbed in the neck, and you'd see people dying at sea and in battle and a parade of martyrs. But Nor. One. Single. Cancer. Kid. Nobody biting it from the plague or smallpox or yellow fever or whatever, because there's no gory in illness. there is no meaning to it. There is no honour of dying of."
Não sei muito bem o que dizer deste livro... 
Claro que já sabia o que me esperava quando lhe peguei, mas ao ler as primeiras páginas preparei-me para que o desfecho fosse um. Contudo, à medida que ia avançando na leitura percebi que estava enganada e que ia ser diferente...

Durante os poucos dias que esta leitura me tomou experimentei um misto de sensações em relação aos personagens e à sua situação de vida. Viver um amor condenado desde as primeiras horas, mas mesmo assim tudo fazerem para conseguirem ter uma vida normal de adolescentes (independentemente das limitações e condicionantes da doença de cada um).

Acho a viagem a Amesterdão um dos pontos cruciais de todo o livro e a partir daí resolvi não ler mais em público para o caso de começar a chorar tipo Madalena arrependida... Não chorei, é verdade, mas penso que li os últimos capítulos à velocidade da luz!

Apesar das expectativas algo elevadas, parti para a leitura um pouco de pé atrás, pois já tinha lido Paper Towns (opinião aqui) e a experiência não tinha sido das melhores. Ainda assim, queria ler este livro e dei uma novo oportunidade ao autor. Gostei muito mais deste que do outro, é um livro muito mais emotivo e que nos faz pensar nas batalhas contra o cancro que todos os dias se lutam com o futuro completamente incerto. Claro que ao transpor estas situações para crianças e adolescentes tudo se torna mais intenso... 

Aconselho a leitura do livro, ainda assim e por agora vou deixar o sr John Green sossegado ;)

sábado, 19 de julho de 2014

O Jogo do Anjo


Não o ouvi aproximar-se, mas quando levantei a cabeça vi que o patrão me observava em silêncio a poucos metros de distância. Levantei-me e aproximei-me dele como um cão bem amestrado. Perguntei a mim próprio se ele saberia que o meu pai estava enterrado naquele lugar e se me teria marcado encontro ali precisamente por isso. O meu rosto devia ler-se como um livro aberto, porque o patrão abanou a cabeça e poisou-me a mão no ombro.
- Não sabia, Martín. Lamento muito.
Não estava disposto a abrir-lhe aquela porta de camaradagem. Voltei-me para me libertar do seu gesto de afecto e comiseração e apertei os olhos para conter as lágrimas de raiva. Comecei a aproximar-me da saída, sem esperar por ele. O patrão aguardou alguns segundos e depois resolveu seguir-me. Caminhou a meu lado em silêncio até chegarmos à porta principal. Ali chegado, parei e olhei-o com impaciência.
- E então? Tem algum comentário a fazer?
O patrão ignorou o meu tom vagamente hostil e sorriu de modo paciente.
- O trabalho é óptimo.
- Mas...
- Se tivesse de fazer alguma observação, seria que acertou em cheio ao construir uma história do ponto de vista de uma testemunha dos factos que se sente vítima e fala em nome de um povo que espera a chegada desse salvador guerreiro. Quero que continue por essa via.
- Não lhe parece forçada, artificiosa...?
- Muito pelo contrário. Nada nos faz acreditar mais do que o medo, a certeza de estarmos ameaçados. Quando nos sentimos vítimas, todas as nossas acções e crenças são legitimadas, por mais questionáveis que sejam. Os nossos opositores, ou simplesmente os nossos vizinhos, deixam de estar ao nosso nível e transformam-se em inimigos. Deixamos de ser agressores para nos convertermos em defensores. A inveja, a cobiça ou o ressentimento que nos movem ficam santificados, porque pensamos que agimos em defesa própria. O mal, a ameaça, está sempre no outro. O primeiro passo para acreditar apaixonadamente é o medo. O medo de perdermos a nossa identidade, a nossa vida, a nossa condição ou as nossas crenças. O medo é a pólvora e o ódio o rastilho. O dogma, em última instância, é apenas um fósforo aceso. É aí que o seu trabalho tem um ou outro buraco.

Depois de ter descoberto O Cemitério dos Livros Esquecidos e de ter devorado por completo A Sombra do Vento, lancei-me nesta leitura cheia de expectativas.  
Já tinha visto variadas opiniões em que diziam que este segundo volume, apesar de toda a magia presente nos livros de Zafón, não era tão viciante como o primeiro e que a história seria um pouco mais arrastada. Terminada a leitura, partilho da opinião geral: apesar de muito bom, não me agarrou da mesma forma que o anterior. Não sei se pelo desenrolar da acção, pelos personagens (alguns que conhecemos em A Sombra do Vento) ou apenas pelo facto de este volume, apesar de ser apresentado como continuação, a nível temporal, ser anterior ao outro. Aqui conhecemos Gustavo Barceló (uns anos mais novo), o pai e o avô de Daniel e também a sua mãe, Isabella, e o grande amigo dela, David Martín (personagem principal).
Outra das coisas de que senti falta foi do humor de Fermín... Já sabia que este personagem não fazia parte deste livro, mas ainda pensei que os seus momentos divertidos seriam "transportados" para outro personagem, o que não aconteceu...

Ainda assim é um excelente livro com uma escrita mágica que nos prende entre o que é ou não real e ficamos a pensar se tudo o que Martín descreve lhe terá acontecido realmente desse modo... Recomendo!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert


Toda a gente falava do livro. Nas ruas de Nova Iorque, eu não podia deambular em paz, não podia fazer jogging nas alamedas do Central Park sem me cruzar com transeuntes que me reconheciam e exclamavam: ≪Oh, é Goldman! É o escritor!≫ Por vezes acontecia alguns tentarem correr para me acompanharem e fazerem as perguntas que os intrigavam: ≪O que diz no seu livro e verdade? Harry Quebert procedeu realmente assim?≫ No cafe de West Village que eu frequentava, certos clientes não hesitavam em sentar-e à minha mesa para falar comigo: ≪Estou a ler o seu livro, Sr. Goldman: não consigo parar! O primeiro já era bom, mas este então! Pagaram lhe mesmo um milhão de dólares para o escrever? Que idade tem? Só trinta anos? Trinta anos! E já amealhou tanto dinheiro!≫ Até o meu porteiro, que eu via avançar na leitura do livro sempre que eu entrava no prédio, acabara por me deter demoradamente em frente do elevador, depois de terminada a leitura, para me confiar o que lhe ia no coração: ≪Então, foi mesmo isto que se passou com Nola Kellergan? Que horror! Mas como se chega àquele ponto? Hem, Sr. Goldman, como é possível?≫
Toda a cidade de Nova Iorque se apaixonava pelo meu livro; fora publicado há duas semanas e já prometia ser o livro mais vendido do ano no continente americano. Toda a gente queria saber o que acontecera em Aurora em 1975. Falava-se dele em todo o lado: na televisão, na rádio, nos jornais. Eu tinha apenas trinta anos e com este livro, que era simplesmente o segundo da minha carreira, tornara me o escritor mais famoso do país.
O caso que agitava a América, e ao qual fora beber o essencial da minha narrativa, eclodira alguns meses antes, no início do Verão, quando foram encontrados os restos mortais de uma jovem desaparecida trinta e três anos antes. Foi assim que teve início a série de acontecimentos que aqui serão relatados, e sem os quais a pequena cidade de Aurora teria certamente continuado a ser desconhecida no resto da América.

Foram estas as palavras que me despertaram interesse quando um dia, após ter esbarrado com prateleiras cheias com este livro por diversas vezes em várias livrarias, decidi pegar-lhe e ver de que se tratava afinal esta verdade. Percebi que era o policial que eu andava a aguardar ansiosamente, depois de ter ficado completamente rendida a Stieg Larsson. Tinha tudo para ser um livro que me ia prender do início ao fim e que ia devorar em menos de nada. 

Ao começar a leitura, percebi que havia uma característica interessante e diferente: os capítulos eram numerados por ordem decrescente e fiquei intrigada. Imaginei que iriam decerto haver saltos no tempo ao longo de todo o livro, o que ainda me deixou mais curiosa. 

Realmente as primeiras cem, duzentas páginas foram devoradas, mas a partir daí a leitura começou a arrastar-se e a tornar-se monótona. Começaram a repetir-se conversas entre os personagens, se bem que com alterações de contexto e situações, e parecia que a ação não avançava. 

Depois, são evidentes os erros de tradução. Será que alguém reviu o livro antes de este ser publicado?! A falta de palavras em algumas frases é por demais evidente e torna-se estranha. 

A narrativa em si é interessante, o modo como está estruturado também e a reviravolta dos últimos capítulos apanhou-me completamente de surpresa, mas penso que tudo isto teria sido igualmente interessante num livro com menos páginas, o que se traduziria em menos repetições e saltos no tempo (perdi a conta às viagens entre 1975 e 2008, com outras paragens pelo meio, muitas delas a acontecimentos anteriormente descritos em que apenas mudava o narrador).

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Marina


Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mas mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.
Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro. Amigos, companheiros, professores e até a polícia lançaram-se na busca daquele fugitivo que alguns já julgavam morto ou perdido por ruas de má fama como num lapso de amnésia.
(…)
Não sabia então que o oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca.
Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.

É com estas palavras que Ruiz Zafón nos transporta a uma Barcelona no início de 1980 na companhia do Óscar e nos apresenta Marina, a sua amiga.

Com o toque de génio, numa escrita simples e ao mesmo tempo profunda que já tinha conhecido em A Sombra do Vento, este livro voltou a agarrar-me desde as primeiras páginas e foi difícil de largar até conhecer o desfecho destas personagens. 



A premissa era simples: um rapaz que conhece uma rapariga, tornam-se inseparáveis e vivem uma aventura numa Barcelona perdida algures no tempo no final da década 1970. Quando comecei a ler vi rapidamente umas quantas semelhanças com A Sombra do Vento, mas este livro é em tudo diferente desse. Se por um lado temos na mesma um adolescente como protagonista, toda a restante ação e desenvolvimento têm lugar num outro universo. As semelhanças podem estar lá noutros momentos, mas a magia desta narrativa é completamente diferente e o seu desfecho foi, para mim, algo imprevisível. Se por um lado, devido, não só ao título do livro, mas também às primeiras frases que nos apresentam Marina, estava subentendido que o destino de Marina era um tanto ou quanto incerto, e apesar de lá pelo meio haver uma luz do que poderia vir a acontecer, confesso que ao chegar ao final e perceber o que realmente sucedia fiquei algo surpreendida, mas são estes pequenos pormenores que fazem com que estas estórias passem de "vulgares" a especiais. Percebo perfeitamente quando Ruiz Zafón afirma que de todos os livros que publicou este é um dos seus preferidos.



Classificado, muitas vezes, como uma estória para crianças, para mim vai muito para além disso. É um livro que apaixona qualquer adulto! Recomendo, absolutamente, a leitura desta estória arrebatadora, que mistura a realidade e fantasia em diversos aspetos e que muitas vezes nos deixa a pensar nesta frase inicial e no seu significado...

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Sombra do Vento


Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Desfiavam-se os primeiros dias do Verão de 1945 e caminhávamos pelas ruas de uma Barcelona apanhada sob céus de cinza e um sol de vapor que se derramava sobre a Rambla de Santa Mónica numa grinalda de cobre líquido.
— Não podes contar a ninguém aquilo que vais ver hoje, Daniel — advertiu o meu pai. — Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.
— Nem sequer à mamã? — inquiri eu, a meia-voz.
O meu pai suspirou, amparado naquele sorriso triste que o perseguia como uma sombra pela vida.
— Claro que sim — respondeu, cabisbaixo. — Para ela não temos segredos. A ela podes contar tudo.
(…)
— Daniel, não podes contar a ninguém o que vais ver hoje. Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.
Um homenzinho com traços de ave de rapina e cabeleira prateada abriu-nos a porta. O seu olhar aquilino poisou em mim, impenetrável.
— Bom dia, Isaac. Este é o meu filho Daniel — anunciou o meu pai. Está quase a fazer onze anos, e um dia ficará ele a tomar conta da loja. Já tem idade para conhecer este lugar.
O tal Isaac convidou-nos a entrar com um leve gesto de assentimento. Uma penumbra azulada cobria tudo, insinuando apenas traços de uma escadaria de mármore e uma galeria de frescos povoados de figuras de anjos e criaturas fabulosas. Seguimos o guardião através daquele corredor palaciano e chegámos a uma grande sala circular onde uma autêntica basílica de trevas jazia sob uma cúpula retalhada por feixes de luz que pendiam lá do alto. Um labirinto de corredores e estantes repletas de livros subia da base até à cúspide, desenhando uma colmeia tecida de túneis, escadarias, plataformas e pontes que deixavam adivinhar uma gigantesca biblioteca de geometria impossível. Olhei para o meu pai, boquiaberto. Ele sorriu-me, piscando-me o olho.
             — Bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos, Daniel.


Completamente devorado!É incrível como este livro nos prende desde as primeiras páginas e nos guia numa viagem pelas ruas de Barcelona na companhia do Daniel em busca da vida de um tal Julian Carax que desapareceu na sombra do vento e de quem pouca gente ouviu falar...São estes os ingredientes que Carlos Ruíz Zafón misturou com uma escrita soberba e que fizeram deste livro aquilo que é. 
Fiquei completamente rendida, e recomendo vivamente a sua leitura! 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Inferno

As memórias materializaram-se lentamente, como um borbulhar que emerge das trevas de um poço sem fundo.
Uma mulher de véu.
Robert Langdon fitou-a do outro lado de um rio cujas águas agitadas corriam rubras de sangue. A mulher estava de frente para ele na outra margem, imóvel, solene, de rosto velado. Na mão, segurava uma tainia azul, que erguia agora em honra do mar de cadáveres aos seus pés. O cheiro a morte pairava em todo o lado.
Procura, sussurrou a mulher. E encontrarás.
Langdon ouviu as palavras, como se ela as tivesse pronunciado dentro da sua cabeça.
—Quem és tu? — gritou, mas não emitiu qualquer som.
O tempo urge, sussurrou ela. Procura e encontrarás.
Langdon deu um passo em direção ao rio, mas viu que as águas estavam tingidas de sangue e eram demasiado profundas para atravessar. Quando Langdon voltou a levantar os olhos para a mulher de véu, os corpos aos pés dela tinham-se multiplicado. Havia agora centenas deles, talvez milhares, alguns ainda vivos, contorcendo-se em agonia, a morrer de formas inconcebíveis... consumidos pelo fogo, enterrados em fezes, devorando-se uns aos outros. Conseguia ouvir os gritos lúgubres do sofrimento humano a ecoar através da água.
A mulher moveu-se na sua direção, estendendo os braços esguios, como que a pedir ajuda.
—Quem és tu? — gritou Langdon uma vez mais.
Em resposta, a mulher ergueu as mãos e levantou lentamente o véu que lhe cobria o rosto. Era de uma beleza impressionante, se bem que fosse mais velha do que Langdon supusera — talvez já passasse dos sessenta anos, imponente e forte, como uma estátua intemporal. Tinha um queixo bem definido, olhos profundos e eloquentes e cabelo comprido cor de prata que lhe caía em caracóis sobre os ombros. Usava um amuleto de lápis-lazúli pendurado ao pescoço — uma cobra enrolada à volta de uma vara.
Langdon sentiu que a conhecia... que confiava nela. Mas como? Porquê?

Comecei este livro um pouco de pé atrás, já que o anterior me tinha desiludido um pouco, ao tornar-se demasiado previsível e sem conseguir atingir-me com o fator surpresa dos primeiros. Mas rapidamente percebi que este Inferno tinha um pormenor que ia fazer toda a diferença e, assim, voltei a ficar presa ao livro até à última página.


O estilo característico de Dan Brown, tipo guião de filme, com capítulos curtos tem a brilhante característica de me deixar completamente viciada e nem as descrições, por vezes extensas (e que eu odeio em grande parte dos livros que leio), conseguem aborrecer-me!

Apesar de tudo, o fator surpresa de O Código DaVinci e de Anjos e Demónios continua bem presente e este Inferno ficou um bocadinho atrás...

terça-feira, 2 de abril de 2013

Uma Morte Súbita


Barry Fairbrother não tinha vontade de ir jantar fora. Aguentara uma enorme dor de cabeça durante grande parte do fim de semana e debatia ­se agora com a data ­limite para entregar um artigo para o jornal local.
No entanto, a sua mulher mostrara ­se um pouco rígida e pouco comunicativa durante o almoço e Barry deduzira que o seu bilhete de congratulações pelo aniversário de casamento não conseguira mitigar o crime de se ter trancado no estúdio durante a manhã inteira. Também não ajudara nada o facto de ter estado a escrever acerca de Krystal, a qual Mary detestava, embora fingisse o contrário.
«Mary, quero levar ­te a jantar fora», mentira ele, para quebrar o gelo. «Dezanove anos, meus filhos! Dezanove anos de casamento e a vossa mãe nunca pareceu tão bela.»
Mary amansara um pouco e sorrira, e Barry decidira então tele­fonar para o clube de golfe, porque ficava ali perto e de certeza que arranjariam mesa. Tentou agradar à sua mulher com pequenos gestos, porque, após quase vinte anos de vida juntos, acabara por se aperceber de como a desiludia frequentemente nas coisas importantes. Nunca o fazia intencionalmente. Tinham simplesmente noções muito diferentes daquilo que deveria ocupar mais espaço na vida.
(…)
Foi então que uma dor como nunca sentira lhe trespassou o cérebro como uma bola de demolição. Mal sentiu a dor nos joelhos quando embateram no alcatrão frio; o crânio explodia ­lhe em fogo e sangue; a agonia era excruciante e para lá de qualquer tolerabilidade, só que tinha de a tolerar, pois o olvido só o pouparia um minuto depois.
Mary gritou — e continuou a gritar. Vários homens saíram a correr de dentro do bar. Um deles desatou a correr para dentro do edifício para ver se algum dos médicos reformados do clube estava presente. Um casal conhecido de Barry e Mary ouviu a agitação lá de dentro do 13 restaurante, abandonou as entradas que estava a comer e apressou­se para a porta para ver em que poderia ajudar. O homem ligou para as emergências pelo telemóvel.
A ambulância teve de vir da cidade vizinha de Yarvil e demorou vinte e cinco minutos a chegar à porta do restaurante. Quando a luz azul intermitente do giroscópio deslizou sobre aquele cenário, Barry estava caído inerte no chão, no meio de uma poça do seu próprio vómito; Mary estava agachada ao seu lado, com os joelhos das calças justas rasgados, a agarrar­lhe a mão, a chorar e a murmurar o nome dele.



It's completely addictive!


Mesmo sabendo que não estava relacionado com o título original, ao pegar no livro pela primeira vez pensei que estava perante um romance policial ou algo do género que envolvesse uma investigação de uma morte que a todos apanhava de surpresa. No entanto, à medida que ia devorando as páginas (sim é mesmo esse o termo), apercebi-me que esta história nada tinha de policial e que a morte de Barry Fairbrother apenas servia de pretexto para J. K. Rowling nos dar a conhecer a pequena cidade de Pagford e os seus habitantes.


Com uma escrita bastante fluída e que nos prende desde as primeiras linhas, somos transportados numa viagem ao quotidiano desta cidade e vamos acompanhando a rotina destas pessoas, os seus relacionamentos e problemas e as intrigas próprias de um local onde todos se conhecem. Não consigo escolher um personagem preferido nem um momento da história que considere crucial, pois até à última página é completamente imprevisível o que vai acontecer a cada uma daquelas pessoas individualmente e à própria cidade mergulhada num conflito antigo.


Depois de me ter conquistado com o seu menino feiticeiro, J.K. não me decepcionou com este livro e mostrou-me um lado diferente. Gostei muito!