A reader lives a thousand lives before he dies, said Jojen. The man who never reads lives only one. (George R. R. Martin)
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sábado, 4 de julho de 2015

Inverno de Sombras


— A Ordem de São Jerónimo só foi um refúgio seguro enquanto nos mantivemos dentro do Mosteiro — disse o monge de pele escura, olhando a caixa.
Todos os outros acenaram em concordância.
— Agora a ordem foi dissolvida… — lamentou o rosto jovem.
— E todos nós teremos de abandonar o Mosteiro — completou o monge calvo, numa voz trágica.
— Alguém tem uma sugestão do que devemos fazer? — perguntou Frei Lourenço, focando o diálogo na solução. — Presentemente, somos os guardiões e, embora nada nos tenha preparado para esta prova, temos o dever de encontrar o caminho certo.
Permaneceram em silêncio. Os seus olhares de volta ao conjunto de mãos que se juntava.
— Se não há mais nenhuma ideia, penso que a minha proposta terá de servir — disse Frei Lourenço, num suspiro que não mostrava alívio, apenas resignação. — Alaíade terá de ser unificada e um de nós terá de ficar com ambas. A Caixa e a Chave.
O secretismo do encontro conteve o murmurinho de inquietação que agitou os homens de Deus, e apenas os seus olhos inquietos tiveram a liberdade de se cruzar e partilhar o nervosismo.
O monge de nariz proeminente formulou a pergunta que era de todos:
— Quem? Qual de nós terá de as guardar?
Um suspiro de pesar. Quatro olhares nervosos.
— Tu — disse Frei Lourenço para o rosto mais jovem entre eles.
Todas as velas se elevaram até aos rostos daqueles que as carregavam e as suas chamas foram apagadas por seis sopros silenciosos.
O que se passaria a seguir ninguém devia ver.

Quem disse que não há bons escritores de Fantasia em Portugal?! 
Fãs do género, têm de ler L. C. Lavado! 
Este Inverno de Sombras é viciante desde a primeira página!

Acabei a leitura esta semana e acho que ainda estou de ressaca com tudo o que li! 
O livro está dividido em duas partes que poderiam ser dois livros independentes. Ao chegar ao final da primeira parte, pensei que já não me ia surpreender mais pois os acontecimentos que levaram aquele desfecho eram dignos de um final de um livro. Não podia estar mais enganada! A cada página que virava, uma nova revelação e não consigo escolher a que mais me surpreendeu...

Com uma escrita bastante simples e fluída e um desenrolar de acontecimentos bastante rápido mas fácil de acompanhar, fui redescobrindo uma cidade pela qual há muito me apaixonei... Para quem, como eu, está habituado a ler Fantasia, adorei ter andado pelas ruas que me são familiares e lugares que conheço bem redescobrindo um novo mundo paralelo, juntamente com pessoas absolutamente "normais" (ou então não)...

A classificação de cinco estrelas sabe a pouco, num livro que me obriga a fazer noitadas por não conseguir largar e, chegando à última página, me deixa a olhar para a palavra FIM sem ser capaz de fechar...

Parabéns à Liliana Lavado por me ter feito devorar as quase seiscentas páginas que o livro tem em pouco mais de uma semana! 
(Não fazia uma destas desde A Guerra dos Tronos...)

terça-feira, 21 de abril de 2015

A Chama ao Vento


– E o homem, esse João Lopes, deu-te uma mala com coisas secretas da tua avó? Interessante.
Sorri, apesar de tudo. A Teresa estava curiosa. Por momentos, senti-me tentado a voltar a meter tudo na maleta e ir refugiar-me nela, como ela queria. Imaginei-me no seu sofá cinzento, as fotos destacando-se na madeira escura da sua mesa de café, e o seu corpo, morno e reconfortante, enroscado ao meu lado. Imaginei a estranheza de partilhar a leitura das cartas que me intrigavam, de tentar decifrar algum dos gatafunhos junto aos poemas misteriosos. Cheguei a levantar-me outra vez, a chave apertada nos dedos, mas deixei-me cair novamente sobre o sofá.
– É interessante – concordei. – Há um livro de poemas numa língua qualquer, parece-me hebraico, mas não sei, e meia dúzia de cartas por enviar, para alguém que se chama Dekel… nem sei se é homem ou mulher, não as li. Dei uma vista de olhos esta tarde, mas depois… Ainda só vi realmente as fotografias.
– São da tua avó?
– Sim. Há umas com as amigas e com o João Lopes, quando eram novos. E há uma com um tipo… até pode ser o tal Dekel – hesitei. – Não a reconheço. Quer dizer, é ela, mais nova, claro, mas ao mesmo tempo não é. A avó tratava-me bem, cuidava de mim, eu sei que gostava de mim, mas como pessoa era… – Faltou-me a palavra e ela tentou ajudar-me:
– Vazia? Morta por dentro, sem chama?
– Sim. Como se se tivesse tornado uma espécie de não-pessoa. Um buraco onde devia haver alguém. Nunca lhe ouvi uma gargalhada, nunca a vi chorar nem zangar-se, nem comigo, nem com o avô, nada. Acreditas? Podia partir um prato antigo, ou os dentes a um colega, ou tirar a melhor nota da turma, que era como se nada lhe importasse, nem eu, nem ela própria… Até o seu olhar estava sempre noutro lado, longe. Sei lá. A rapariga das fotos transpira vida. O sorriso, os olhos… estão vivos.
– E o que dá cabo de ti é não saberes porquê.

Há uns meses participei num passatempo e saiu-me este livro :) (nunca me sai nada) Andou perdido pela minha biblioteca de ebooks durante algum tempo, e agora resolvi pegar-lhe...

Comecei a ler sem qualquer tipo de expectativa. Logo nas primeiras páginas começaram as surpresas! Um corpo atirado ao mar? Um salto no tempo, e um casal de férias no Algarve que terminam em discussão e vai cada um para seu lado... Confesso! Fiquei presa logo nas primeiras páginas! Nem foi preciso o mínimo esforço! Por isso, parabéns Carla M. Soares!

À medida que ia avançando na leitura, conhecendo personagens e entrando dento da narrativa, ia ficando cada vez mais intrigada e curiosa. Intrigada em relação ao rumo que tudo estava a tomar... Curiosa pelo desfecho que poderia ter...

A escrita da Carla é bastante simples e contagiante. Daquele tipo que nos prende e não nos larga até chegarmos à última página e, quando esse momento chega e tudo é revelado, deixa-nos um sabor agridoce. Por um lado, as dúvidas estão desfeitas, mas também a leitura chegou ao fim... 

Admito que não costumo acompanhar de perto o trabalho dos autores portugueses. Contudo, todos os que tenho descoberto ultimamente (a grande maioria não tem a visibilidade que deveria) têm sido surpresas muito agradáveis e que me deixaram com muita vontade de continuar a acompanhar e (re)descobrir o seu trabalho. A Carla não foi excepção! Certamente não ficarei por aqui com os seus livros! Est'A Chama ao Vento foi apenas o ponto de partida para a descoberta.

Aconselho!
Ideal para os apaixonados pelos mistérios da II Guerra Mundial e dos países neutros... Afinal, em Portugal também havia espiões estrangeiros...

domingo, 8 de março de 2015

A filha do barão

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Quando D. João tece a união da sua única filha, Mariana de Albuquerque, com o seu melhor amigo - um inglês que investiga o potencial comercial do vinho do Porto -, não prevê a espiral de desenganos e provações que causará a todos. Mariana tem catorze anos e Daniel Turner vive atormentado pela sua responsabilidade para com a amante. Como se não bastasse, o exército francês está ao virar da esquina, pronto a tomar o Porto e, a partir daí, todo o país. No seu retiro nos socalcos do Douro, Mariana recomeça uma vida de alegrias e liberdade até que um soldado francês, um jovem arrastado para um conflito que desdenha, lhe bate à porta em busca de asilo. Daniel está longe, a combater os franceses, e Gustave está logo ali, com os seus ideais de igualdade e o seu afecto incorruptível, disposto a mostrar-lhe que a vida é mais do que um leque de obrigações.

Bem nem sei bem o que diga... aquele final matou-me.
Adorei. por diversos fatores. O primeiro os factos históricos novos que aprendi. Acho que um histórico só está bem escrito quando nos ensina algo e tenho muito o hábito de depois ir pesquisar mais acerca da época e se realmente é como escreveram e neste caso isso aconteceu.
Depois a escrita, para quem como eu acompanha esta autora desde o Demência, nota-se o amadurecimento, a forma como faz as descrições. Muito bom.
E depois a trama em si, nem sei que vos diga. Não gosto daquela mãe, apesar de compreender o porquê de ela ser assim. A própria Mariana no início era uma criança mimada e depois cresceu.
enfim tem todos os ingredientes para nos deixar presos até à última página.
Recomendo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A Filha do Barão


     O olhar escuro como ébano de Mariana dirigiu-se-lhe, levemente angustiado. Procurou o dele, exigiu que se prendessem um no outro por um breve momento. Talvez, perspicaz como era, suspeitasse que aquela poderia ser a última vez que veria o pai. D. João estava certo de que assim era; a sua saúde deteriorava-se a olhos vistos, a tísica era contagiosa e, ao entardecer, era geralmente tomado por febres que o enfraqueciam. As noites arrastavam-se com uma tosse aflitiva que mantinha a mulher igualmente acordada, e era olhado de lado pelos homens que, como ele, dividiam o espaço na sua salinha na alfândega. Tinha, contudo, sido demasiado apreciado pela rainha, para que se opusessem à sua presença junto aos seus cadernos de números. Era um homem tido em certa conta e, se não fosse a doença que havia meses lhe corroía os pulmões, teria um aspecto ainda jovem para os seus trinta e quatro anos. Ultimamente, parecia que a pele adquirira um tom macilento e que a cavidade torácica se tornava mais evidente. Emagrecia no esforço por trazer algum ar ao seu interior. A peste cinzenta reclamava-o para o outro lado e ele, como bom cristão, assegurara-se de que encaminhava as duas almas que tinha a seu encargo para a costa.
     (…)
     À porta do café juntavam-se as meninas afectadas, em idade casadoira, que esperavam nas carruagens pelas criadas que lhes traziam os sorvetes. Mariana de Albuquerque era uma delas, em tudo diferente das crianças inglesas, de rostos angelicais e olhos claros. Os cabelos das crianças portuguesas eram escuros como os dos ciganos que percorriam a Inglaterra nas suas tendas de nómadas, e a filha de D. João, postada fora da liteira com uma criada, à espera que o pai regressasse com o sorvete de cacau açucarado, não diferia das restantes. Quando a vira na companhia do pai,
achara-a sempre uma réplica de cigana inglesa, de pele tocada pelo sol que reflectia no Tejo, olhos negros e cabelos cor de ébano. Era baixa, o peito liso como uma planície sob o espartilho e nem as rendas delicadas do decote baixo aliviavam essa impressão de saltimbanca. Das únicas duas vezes que fora abordada por D. João na sua presença, limitara-se a encaminhar o sorvete para as beiças de menina gulosa e a ignorá-lo. Tudo o resto, das gaivotas às vendedoras que equilibravam tripas sobre a cabeça, lhe parecia mais digno da sua honrosa atenção. O pai gabava-lhe o inglês, mas a fidalga de onze anos não lhe dedicara um bom-dia que fosse. D. João desculpara-se em seu nome. Pai algum inglês se desculpava em nome da filha mimada.

Confesso que, quando tenho de escolher um livro para ler, os autores portugueses não se encontram entre as minhas primeiras escolhas. Não por falta de talento, muito pelo contrário, mas porque não me costumo identificar muito com os assuntos/tipos de escrita.
Contudo, a Célia conseguiu mudar um pouco do estereotipo criado na minha mente. Não só pela escrita, mas também por se ter "arriscado" a escrever Romances Históricos, um dos meus géneros favoritos.

Logo nas primeiras páginas, acompanhamos a viagem das mulheres da família Albuquerque de Lisboa para o Porto e, posteriormente, para os arredores de uma aldeia nas encostas do Douro. D. João, o barão, prometeu a filha Mariana, em casamento, a um tal de Daniel Turner, inglês, que pretende estabelecer-se em Portugal a produzir vinho do Porto... 
Mas estamos no início do século XIX e Napoleão prepara-se para invadir Portugal... 

Com uma escrita bastante simples, mas rica em pormenores históricos e descrições da época (nada maçadoras), somos transportados ao Portugal do início do século XIX, quando os homens foram arrastados para uma nova luta pela independência deste cantinho à beira mar plantado e as mulheres tiveram de lutar pelas suas famílias e bens, ainda que por vezes com poucas condições.

Será que Mariana e Daniel se vão entender e acabar por se apaixonar um pelo outro, apesar da diferença de idades? Porque é que D. Sofia trata mal a própria filha, quando parece que toda a gente gosta da fidalguinha? Que segredos, afinal, levou D. João consigo para o túmulo? 
Estas e outras questões são levantadas ao longo do livro e dei por mim a devorar as mais de quinhentas páginas para chegar ao final e perceber que Mariana e Daniel ainda têm muitos segredos por descobrir relativamente ao seu passado que de certeza irão influenciar o futuro de ambos. 

Mal posso esperar pela continuação!

Recomendo!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Para Onde Vão os Guarda-Chuvas


Disse Tal Azizi: Os nossos corpos têm veias para fora deles. Escuta, amado discípulo, essas veias ligam-se a lugares especiais, a pessoas que gostamos. Um aparelho circulatório que não é ensinado nas aulas de anatomia, que não se aprende nas madrasas nem nas universidades. O nosso coração não bate cá dentro, bate na terra de que gostamos, ó discípulo, nos objectos que nos são especiais, nos peitos dos nossos familiares, em músicas que nos fazem chorar. Nunca ninguém nos ensinou onde estava realmente o coração, aquilo que ouvimos bater no peito é apenas um reflexo de todos os nossos corações, que batem em tantos lugares diferentes. As nossas noções de anatomia, amado Gardezi, estão todas erradas.

Para onde vão os guarda-chuvas?... Um título que me despertou a curiosidade mas que estava longe de imaginar o tipo de livro que o poderia ter... Depois de ter lido críticas bastante favoráveis, ainda fiquei mais intrigada e curiosa.

Este livro foi a minha estreia no mundo de Afonso Cruz e realmente não estava à espera de gostar tanto. Confesso que durante muitas páginas não consegui perceber se gostava ou não do que estava a ler, mas era uma sensação agridoce pois não conseguia largar o livro. Parecia que estava enfeitiçada pela simplicidade e, em algumas partes, frieza da escrita.

Mas a partir de um certo ponto, percebi que estava mesmo a gostar e que o livro tinha tudo para merecer a classificação máxima... Mas (e há sempre um mas) o final deixou-me de tal maneira boquiaberta e foi tão inesperado que lhe roubei uma estrela. Claro que, num livro tão bom, isso se torna irrelevante.

A simplicidade da narrativa deixa-nos a pensar. Banalidades do dia-a-dia tornam-se importantes da perspectiva dos personagens. Fiquei rendida a Afonso Cruz!

Para onde vão os guarda-chuvas? São como as luvas, são como uma das peúgas que formam um par. Desaparecem e ninguém sabe para onde. Nunca ninguém encontra guarda-chuvas, mas toda a gente os perde. Para onde vão as nossas memórias, a nossa infância, os nossos guarda-chuvas?

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Segunda Pele da Acácia Mimosa

Não sei quanto tempo fiquei assim neste adormecimento interior que me despertou. O tempo deixou de existir desde que aqui entrei, mas a resposta surgiu, do silêncio que se implantou cá dentro. Dedicar-me a quê foi a pergunta, cuja simples e límpida resposta surgiu naturalmente. Como nunca tinha visto isto?! Ajoelho-me sobre a madeira rígida do banco da frente, que neste momento parece uma doce nuvem suave, e agradeço profundamente esta iluminação interior. Obrigada! Obrigada! Obrigada! O sal alegre penetra-me nos lábios agradecidos do âmago. Ofereço os olhos às iluminadas clarabóias com as duas mãos agradecidas, uma sobre a outra, sobre este novo sentir do palpitar. Obrigada, digo em voz baixa.
(...)
Não sei como consegui ficar tanto tempo desligada de mim, como se tivesse vivido estes anos todos em estado de coma, inconsciente de quem sou. A minha mente viveu meia perdida. Como é tão simples ser como nasci para ser! Sorrio genuinamente e com suavidade para aqueles que se cruzam comigo. Se soubessem o que descobri! Detenho-me à saída, a olhar para trás, para os inúmeros feixes de luz. Obrigada mais uma vez. Renasci aqui, na Sagrada Família, onde Gaudí descansa na sua morte, ao mesmo tempo que a sua obra continua por si e sobre si. 

Este livro veio para às minhas mãos sem eu estar à espera, e revelou-se uma surpresa muito agradável :) 
Obrigada Ana Gil Campos pelo email!

Quando comecei a ler, precisava de mudar de género literário. Precisava de um livro leve e que me proporcionasse uma leitura rápida. Estava longe de imaginar o quão rápida iria ser... (Levei cerca de 4 horas a devorar as 170 páginas do livro!) 

No início, confesso, que fiquei um pouco confusa em relação à sinopse, mas à medida que fui avançando nas páginas fui compreendendo tudo. A turbulenta mente de Sara fascinou-me por completo e a sua luta interior comoveu-me. A sua viagem a Barcelona fez-me também viajar por uma cidade da qual gostei muito e revisitar locais há muito gravados na memória. 

A escrita da Ana é bastante fluida e simples mas nem por isso deixa de ter a sua complexidade. Os conhecimentos de arquitetura e da maçonaria estão muito bem descritos e não são nada maçadores, muito pelo contrário. Fizeram com que ficasse ainda mais curiosa quer em relação ao desfecho da estória, quer em relação aos próprios temas em si.

Aconselho! É, sem sombra de dúvida, uma ótima aposta num novo talento da escrita em português!

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O Último Conjurado: Divulgação

A pedido de várias famílias (a autora do livro, entenda-se) resolvi que estava na altura de fazer um post diferente do habitual ;)

Como não tenho parcerias com editoras, não tenho por hábito fazer divulgação de novos livros.
No entanto, um dos meus livros favoritos está "de cara lavada" e vai ser reeditado brevemente. Como tal, acho que está na altura de divulgar um bocadinho do desconhecido que por aí anda e que é muito bom.



Passaram dez anos desde que descobri este livro e depois de o ter lido e relido ainda olho para ele cada vez que vou à estante buscar um novo livro para ler...

Ainda hoje não consigo explicar o que me atraiu, mas O Último Conjurado é daqueles livros que nos faz querer viajar no tempo e "aterrar" naquela época para viver juntamente com os personagens.

Juntemos, então, o Capitão Gualdim e o Sem Pavor, um povo descontente a viver sob o dominio de um rei espanhol, a bela Laura de Noronha e a sua prima Cristina e ainda os bravos cavaleiros Pedro de Castro, Diogo de Vasconcelos e Afonso Menezes, bem como o mesquinho Manuel de Vilar... Tudo isto no cenário que antecede a revolução de 1 de dezembro de 1640... 
Agora, a editora Saída de Emergência resolveu incluí-lo na coleção A História de Portugal em Romances e a partir do próximo dia 31 de outubro está novamente à venda e com nova cara (da qual eu gosto muito).


Deixo-vos aqui com a minha opinião e um pequeno excerto para abrir o apetite...

Os amantes do romance histórico não se vão arrepender!


Sinopse:
Há sessenta anos que Portugal era humilhado pelos Filipes de Espanha. 

É então que um grupo de heróis decide revoltar-se. 

1640. O jugo espanhol dura há sessenta anos. Seis décadas de identidade roubada, pátria escondida e falsa lealdade. Mas algo está diferente: fala-se do enigmático Capitão Gualdim, que desafia o poder espanhol pelas ruas de Lisboa enquanto se conspira nas sombras e a guerra contra o domínio espanhol ameaça rebentar. Uma importante parte da nossa História ganha vida em O Último Conjurado de Isabel Ricardo, onde a realidade se cruza com a ficção. Duelos, emboscadas, amores e muito mistério envolvem as principais personagens, três jovens cavaleiros que vivem todo o tipo de aventuras. Um romance histórico que representa com rigor os factos ocorridos neste tão importante período da nossa História, enlaçado numa maravilhosa narrativa cheia de suspense.
(Segundo a editora Saída de Emergência)

quinta-feira, 27 de março de 2014

Halloween


O meu nome é Alexandre e já estou trancado neste manicómio há tantos anos que já não sei que idade tenho. (...) Que doce ironia, esta vida! Pergunto-me se terá sido propositado. Ouço claramente uma voz feminina a elevar-se da melodia que paira ao meu lado, ao mesmo tempo que o relógio velho mas incrivelmente acertado da sala bate as doze badaladas que findam o Dia das Bruxas. A voz funde-se com o sino, e o meu ser junta-se-lhes, perdido a olhar para o cemitério e a luz que dele emana...

Sendo que ontem foi assinalado o dia do escritor português e não estando de momento a ler nada de um autor português, achei que não podia deixar de assinalar a data. Descobri, um pouco por acaso, confesso, este conto da Nádia Batista e resolvi que seria esta a minha homenagem aos escritores portugueses.

Tendo por base um tema bastante comum, e uma situação que também não é nova, estes quatro amigos conseguiram surpreender-me e ao chegar ao fim queria mais... Todo o ambiente de mistério envolvido, mas que ao mesmo tempo é bastante normal para uma aventura de adolescentes na Noite das Bruxas, deixou um sabor agridoce por ser um conto tão curto. Gostei do que li e estava disposta a passar uma tarde bem acompanhada (mesmo que fosse num cemitério abandonado) para perceber quem é realmente o Alexandre e o que se passou naquele Halloween.

Estamos perante um doente mental? O que aconteceu realmente ao Alexandre e aos seus amigos naquela noite? A voz feminina é mesmo um chamamento da Eva? Tenho mais umas quantas perguntas na minha cabeça, mas a ideia é manter o suspense e aguçar a curiosidade de possíveis leitores. Quanto a mim, fiquei convencida apesar de ter sabido a pouco!

Nádia e uma continuação? 

Halloween está disponível para download aqui e quem quiser conhecer melhor a Nádia Batista, pode fazê-lo visitando o seu blog Eu e o Bam (de certeza que não se arrependerão).

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O Funeral da Nossa Mãe


          A decisão que Carolina tomara afectaria toda a sua vida e, inclusivamente, o momento que escolheria para a sua morte. Enquanto se encaminhava sob o braço da irmã, que já a ultrapassara em altura, para a festa dos Esteves – para festejar o final das suas alegrias – ia mordiscando incessantemente o interior dos lábios. A avó sentara-se com ela na penumbra e aconselhara-lhe coisas impensáveis. Indecentes, imorais. Mas perfeitamente capazes de funcionar. E ela tinha de arriscar tudo, fosse a sua reputação, fosse o modo inocente e honesto como Lourenço a via.
(…)
        A avó dissera-lhe que a mulher é biologicamente talhada para atrair o homem a si. Garantira-lhe que, depois de os lábios dele provarem os dela, ou de a sua mão roçar a calidez das suas coxas, não haveria retorno possível. Ela teria ganho a batalha, se não a guerra. Ainda assim, a ideia de o ludibriar, chamando-o e seduzindo-o, fazia-a envergonhar-se de si própria.
(…)
Ele passou o rosto dela em revista, tentando discernir a sua amiga de infância no interior daqueles olhos claros e tomados de luxúria. (…) Passou em revista as vezes que tinham estado a sós à beira-rio e sentindo-se torturado pelas imagens do corpo dela, sarapintado de gostas de água, a reluzir ao sol. Como é que nunca a vira desse modo? Provavelmente, tinha sido a fantasia dela durante os últimos anos e, se ao menos não tivesse sido tão cego, ter-se-ia apercebido de que ela se transformara numa mulher de beleza singela e formas perfeitamente desejáveis.

Depois de tantas boas opiniões lidas, cedi à curiosidade de pegar neste livro e acabei por conhecer a autora :-) 

Ao folhear as páginas antes de começar a ler, dei-me conta que havia muitas descrições e fiquei um bocadinho de pé atrás. Mas logo nas páginas iniciais tive uma agradável surpresa e as longas descrições tornaram-se facilmente devoráveis e envolventes, facto que se deve à fantástica escrita da Célia.


A história em si não é nada que de um modo ou outro não tenhamos já lido/visto em outros livros ou filmes, mas os segredos que esta família guarda são revelados de um modo que nos mantém em suspense até às últimas linhas e deixa-nos a querer mais. Dei por mim a simpatizar com a Ingrid e a embirrar com a Carolina, a não compreender algumas atitudes da protagonista no seu amor incondicional a Lourenço... 



Gostei muito de conhecer a Vila Flor algures perdida pelo "meu" Alto Alentejo, ali bem perto da minha terra (que também mereceu ser mencionada, ainda que apenas por breves instantes, no início do livro) e que de tão semelhante a qualquer uma daquelas vilas e aldeias traduz um bocadinho de cada uma delas e dos seus habitantes. As pessoas, as casas brancas nas ruas empedradas ou até mesmo o calor desértico que se faz sentir todos os verões...

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O Último Conjurado


Havia já algum tempo que um cavaleiro solitário os seguia, escondendo-se nas sombras e ninguém parecia dar pela sua presença.
A uma dada altura, os nossos amigos saíram do coche e começaram a caminhar rapidamente, precedidos pelo criado que lhes alumiava o caminho.
De tempos a tempos, olhavam para trás, receando ser seguidos, mas nada viram de suspeito. Não se via nem ouvia vivalma.
Soprava um vento frio que abanava as folhas das árvores e as lançava ao chão, fazendo-as rodopiar. Por vezes, as estrelas ficavam ocultas por nuvens escuras, mas felizmente por breves momentos…
Aconchegaram melhor a capa ao corpo e Pedro levava a mão fincada no copo da espada, cauteloso como sempre.
Lá bem atrás, a sombra continuava a segui-los, disfarçadamente. Já não ia a cavalo.
Pouco depois, passavam pela igreja de São Domingos. Aproximaram-se do palácio de D. Antão e olharam em redor. Entraram ambos e o criado desapareceu na escuridão de uma rua.
O nosso sinistro espião conservou-se numa esquina onde podia ver sem ser visto. Os seus olhos brilhavam de excitação.
Passado algum tempo, o que viu deixou-o estarrecido. Apesar da pessoa em questão tentar esconder o rosto ao entrar no palácio, reconheceu-a.
Sentindo o coração aos pulos dentro do peito, encostou-se à parede, estupefacto.
– Meu Deus!… É o Dr. João Pinto Ribeiro, o agente dos negócios do duque de Bragança!… Que fará ele aqui?! – exclamou, perplexo. – E a esconder-se como um reles ladrão!… Só pode ser uma conspiração!… Meu pai vai gostar muito de saber disto!!…
– Talvez…, mas vossa senhoria nunca lhe dirá…
D. Manuel saltou de susto. Empalidecendo, virou-se, deparando com um vulto vestido de negro.
– Vosso pai não vos ensinou que é muito feio espiar os outros?…
– Capitão… capitão Gualdim!…
O mascarado tirou o chapéu e, galantemente, fez uma tal mesura que quase bateu com a testa no chão.
– Ao dispor de vossa senhoria…
D. Manuel desembainhou a espada, a tremer, e recuou. As últimas feridas causadas por ele ainda lhe estavam bem vivas na memória.
– Maldição! Pareceis uma alma penada!… Apareceis não se sabe donde e quando menos se espera…
O outro cavaleiro riu-se, trocista.
– Decerto não estais à espera de escapar, pois não…?
O fidalgo estremeceu. Nisto, deu meia volta e correu, mas poucos passos andou sem que lhe surgisse à frente o seu inimigo, de espada em riste. Sem o conseguir evitar, viu-se a terçar espadas com ele.
Sabedor da perícia do adversário, não tentava nenhuma investida, limitando-se a defender as suas prodigiosas estocadas, que o deixavam sem pinga de sangue a cada uma que conseguia defender.
Não haviam passado dois minutos e já ele fora ferido no antebraço esquerdo. Pálido como um morto, não sabia como se desenvencilhar dele.
De repente, um mocho em voo piou mesmo sobre as suas cabeças, sobressaltando Gualdim que descurou a defesa por segundos. Aproveitando aquele rasgo de sorte que o destino lhe proporcionara, D. Manuel lançou-se sobre ele, decidido a feri-lo mortalmente no coração. Mas, rápido como um relâmpago, Gualdim virou-se mesmo a tempo e aparou-lhe o golpe com tanta violência que o fez desequilibrar-se. Para não cair, agarrou-se ao que estava mais à mão: a máscara do espadachim. Viu-se com ela na mão, pasmado…
Levantou os olhos, abismado, sem poder acreditar na sua sorte. O que viu deixou-o tão assombrado, que cambaleou, com uma expressão de terror no rosto, sem querer acreditar no que os seus olhos viam.
– Sois vós!?! Meu Deus!!!… Não é possível!!…

Já passaram alguns anos desde a primeira vez que o li, mas ainda olho para ele na estante cada vez que vou buscar um novo livro... Já li e reli, mas nem por isso a história deixa de me surpreender, muito pelo contrário. Cada vez que o retiro da estante, nem que seja só para ler um excerto, consigo descobrir novos pormenores que por uma razão ou outra escaparam às leituras anteriores. 


Para conhecer melhor:

terça-feira, 12 de março de 2013

Estranha Forma de Vida

  
Ele sabia que não podia dispensar as russas. A diversidade da cor dos olhos, do tom de pele e do sotaque era essencial para o bom andamento do negócio. Ia ao encontro do mito do homem e do seu diversificado harém. 
(…)
Bastava conhecer as preferências do cliente de deixá-lo feliz. E tudo se resumia nessa frase simples, mas muito comercial: o cliente tem sempre razão. Ele sonha, a casa dá e a fortuna cresce.

Reconheço que deveria dedicar mais "tempo de antena" aos escritores portugueses, pois cada vez que o faço fico surpreendida pela positiva. 

Gosto muito de policiais e esta foi a primeira vez que me deparei com um estritamente português. Muito pormenorizado no que respeita ao submundo da noite, deixa-nos com uma perspectiva bastante realista de como esses negócios se processam e faz-nos pensar um pouco nas pessoas que nos rodeiam todos os dias e que segredos podem esconder...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Breve História de Amor


O comboio pára na estação, entretanto a carruagem encheu -se e ela percorre o cais no meio da multidão. Chega à rua, atravessa-a por entre a confusão do tráfego matinal, ouve uma buzina nas suas costas e salta para o passeio assustada. Olha para trás, a ver quem apitou, sem parar de andar, choca com alguém. Desculpe, diz em português, sem pensar em inglês. Um homem jovem, engravatado, com um sorriso simpático, responde-lhe, não faz mal, também em português. As mãos dele, que agarram ainda os ombros dela, impediram que caísse. Ele retira-as. Está perdida?, pergunta-lhe. N… não, gagueja ela. Trocam algumas palavras, por serem ambos portugueses em Londres, depois seguem em sentidos opostos.

Confesso que não sou muito fã de contos, mas como tinha este livro aqui pela minha estante resolvi pegar-lhe e começar a ler. 
Surpreendeu-me pela positiva, pela simplicidade de escrita e das próprias situações. 
Encontros casuais que acontecem com cada um de nós e a partir dos quais se podem desenvolver grandes amizades e mesmo histórias de amor.
Gostei!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Crime e Sedução


Henrique fitou o irmão, angustiado. Os seus olhos transmitiam um desespero e uma dor tão intensas que impressionaria qualquer pessoa. Sabia que iria morrer e nada podia fazer  para  o  evitar. Fez um esforço desmesurado para mexer as mãos, mas só o que conseguiu foi mexer o polegar esquerdo e isso com muito esforço e sofrimento. Fechou os olhos, cansado. Fez novas tentativas, mas o resultado foi sempre o mesmo.
Dez minutos depois, Marta entrou no quarto, cautelosa. Sorriu ao ver o enfermeiro a dormir de boca aberta e o cunhado com a cabeça de lado. Até ali o plano corria às mil maravilhas. Acercou-se da cama e sentou-se, com um sorrisinho diabólico estampado no rosto.
– Deves ter pensado que eras mais esperto do que eu, meu caro, mas enganaste-te, como vês… Sempre fui mais inteligente do que tu e no fundo sempre o soubeste, por isso me receavas tanto. Dou-te um minuto para encomendares a alma a Deus ou ao diabo. Fica à tua escolha. É só o tempo de eu me preparar.
Henrique fitava-a com os olhos quase a saltarem-lhe das órbitas. O seu maior pesadelo estava a acontecer e ele sem nada poder fazer para o evitar. Não devia haver morte pior do que aquela. Sentir que alguém o estava a matar e nem um grito de socorro conseguir fazer sair da sua boca.
Marta levantou-se, sorrindo. Fitou-o nos olhos e estremeceu levemente ao vê-los com um ódio e desespero tão intensos. Iria recordar sempre até ao fim da sua vida aqueles olhos nos seus piores pesadelos.
– Bons sonhos, querido marido…
Afastou-se dele e acercou-se da mesinha, colocando as chávenas sujas no tabuleiro juntamente com o termo. O seu trabalho ainda não terminara; o mais difícil começava agora…
Deslizou rapidamente para o andar inferior, deixando o marido entregue aos seus dolorosos pensamentos e derradeiros momentos de vida.
“Meu Deus, ajuda-me, por favor! Não me deixes morrer assim… Alguém tem de saber o que esta mulher me fez. Ela não pode ficar sem castigo. Desejo tanto viver! Ver minha filha e meu irmão felizes e à minha volta… Sei que conseguiria recuperar com a ajuda deles. Por favor, salva-me! MEU DEUS, SALVA-ME!”
Duas lágrimas rolaram-lhe pelas faces e pararam-lhe nos lábios. De nada valia ter esperança. Só lhe restava aproveitar os últimos momentos de vida que lhe restavam e não o faria rezando, pois no seu coração não existiam remorsos de nada que tivesse feito contra alguém. Na sua fé sabia que Deus, se é que existia mesmo, o perdoaria por isso. Tinha de pensar rapidamente numa maneira de não deixar impune a criminosa que o matava. Sem saber como, conseguiu ter força suficiente para mexer a mão esquerda o suficiente para a colocar debaixo do seu corpo, com o polegar colado à aliança. Esperava, dessa maneira, indicar ao irmão e ao amigo Fernandes quem o matara.
Todos os seus músculos estavam paralisados. Sentiu o coração parar de bater e deixou de conseguir respirar. Ainda conseguiu fixar o rosto adormecido do irmão.
“Que Deus te abençoe, meu irmão! Vela pela minha querida Joana!”
E com a lembrança do rosto da filha acabou por fechar os olhos.

Completamente devorado! 

Nada a dizer... A Isabel consegue prender-nos aos livros logo na primeira página e cada página lida traz uma nova revelação surpreendente e que altera o rumo da história... Quando achamos que já compreendemos qual será o desfecho das personagens ela consegue trocar-nos as ideias e o final é completamente diferente do que imaginamos :)

Sem dúvida uma ótima leitura!



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