A reader lives a thousand lives before he dies, said Jojen. The man who never reads lives only one. (George R. R. Martin)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A Glória dos Traidores (Crónicas de Gelo e Fogo #6)

Na manhã do terceiro dia, os portões da cidade abriram-se e uma fileira de escravos começou a sair. Dany montou a prata para ir ao seu encontro. Ao passarem, a pequena Missandei foi-lhes dizendo que deviam a liberdade a Daenerys Nascida na Tormenta, a Não-Queimada, Rainha dos Sete Reinos de Westeros e Mãe de Dragões.
- Mhysa! - gritou-lhe um homem de pele castanha. Trazia uma criança ao ombro, uma rapariguinha, e ela gritou a mesma palavra na sua vozinha fininha. - Mhysa! Mhysa!
Dany olhou para Missandei.
- Que estão eles a gritar?
- É ghiscari,a antiga língua pura. Quer dizer “Mãe”.
Dany sentiu uma leveza no peito. Nunca darei à luz um filho vivo, recordou. A mão tremeu-lhe ao erguê-la. Talvez tenha sorrido. Deve ter sorrido, pois o homem também sorriu e voltou a gritar, e outros acompanharam o seu grito.
- Mhysa! - gritaram. - Mhysa! MHYSA! - Estavam todos a sorrir-lhe, a estender as mãos para ela, a ajoelhar à sua frente. Alguns chamavam-lhe “Maela”, outros gritavam “Aelalla” ou “Qathei” ou “Tato”, mas qualquer que fosse a língua, todas as palavras queriam dizer o mesmo. Mãe. Eles estão a chamar-me Mãe.

Ansiava por este livro desde que iniciei a saga e vi algumas reviews de toda a obra. 
Decididamente é o livro da revolta/revolução/reviravolta (o que lhe quiserem chamar)!
Dei várias vezes por mim a simpatizar com personagens odiados e até a compreendê-los mas também foram muitas as alturas em que surgia uma vontade repentina de mergulhar nas páginas, pegar numa espada e cortar umas quantas cabeças...
Um livro prometedor em relação aos próximos! 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Inferno

As memórias materializaram-se lentamente, como um borbulhar que emerge das trevas de um poço sem fundo.
Uma mulher de véu.
Robert Langdon fitou-a do outro lado de um rio cujas águas agitadas corriam rubras de sangue. A mulher estava de frente para ele na outra margem, imóvel, solene, de rosto velado. Na mão, segurava uma tainia azul, que erguia agora em honra do mar de cadáveres aos seus pés. O cheiro a morte pairava em todo o lado.
Procura, sussurrou a mulher. E encontrarás.
Langdon ouviu as palavras, como se ela as tivesse pronunciado dentro da sua cabeça.
—Quem és tu? — gritou, mas não emitiu qualquer som.
O tempo urge, sussurrou ela. Procura e encontrarás.
Langdon deu um passo em direção ao rio, mas viu que as águas estavam tingidas de sangue e eram demasiado profundas para atravessar. Quando Langdon voltou a levantar os olhos para a mulher de véu, os corpos aos pés dela tinham-se multiplicado. Havia agora centenas deles, talvez milhares, alguns ainda vivos, contorcendo-se em agonia, a morrer de formas inconcebíveis... consumidos pelo fogo, enterrados em fezes, devorando-se uns aos outros. Conseguia ouvir os gritos lúgubres do sofrimento humano a ecoar através da água.
A mulher moveu-se na sua direção, estendendo os braços esguios, como que a pedir ajuda.
—Quem és tu? — gritou Langdon uma vez mais.
Em resposta, a mulher ergueu as mãos e levantou lentamente o véu que lhe cobria o rosto. Era de uma beleza impressionante, se bem que fosse mais velha do que Langdon supusera — talvez já passasse dos sessenta anos, imponente e forte, como uma estátua intemporal. Tinha um queixo bem definido, olhos profundos e eloquentes e cabelo comprido cor de prata que lhe caía em caracóis sobre os ombros. Usava um amuleto de lápis-lazúli pendurado ao pescoço — uma cobra enrolada à volta de uma vara.
Langdon sentiu que a conhecia... que confiava nela. Mas como? Porquê?

Comecei este livro um pouco de pé atrás, já que o anterior me tinha desiludido um pouco, ao tornar-se demasiado previsível e sem conseguir atingir-me com o fator surpresa dos primeiros. Mas rapidamente percebi que este Inferno tinha um pormenor que ia fazer toda a diferença e, assim, voltei a ficar presa ao livro até à última página.


O estilo característico de Dan Brown, tipo guião de filme, com capítulos curtos tem a brilhante característica de me deixar completamente viciada e nem as descrições, por vezes extensas (e que eu odeio em grande parte dos livros que leio), conseguem aborrecer-me!

Apesar de tudo, o fator surpresa de O Código DaVinci e de Anjos e Demónios continua bem presente e este Inferno ficou um bocadinho atrás...

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A Queda dos Gigantes (Trilogia: O Século Livro 1)


No mesmo dia em que o rei Jorge V foi coroado na Abadia de Westminster, em Londres, Billy Williams desceu ao poço em Aberowen, no Sul de Gales.
(…)
Hewitt Seboso estava de tacha arreganhada. — Não tiveste medo, Billy, lá sozinho no escuro?
Ponderou uma resposta. Estavam todos de olhos cravados nele, à espera de ouvir o que teria a dizer. Os sorrisos matreiros tinham-se desvanecido, e os homens pareciam agora ligeiramente envergonhados. Decidiu dizer a verdade.
— Tive medo, mas não estive sozinho.
Hewitt ficou desorientado. — Não estiveste sozinho?
— Não, é claro que não — reiterou Billy. — Jesus esteve sempre comigo.
Hewitt soltou uma sonora gargalhada, mas foi o único. O seu riso grosseiro ecoou no silêncio e deteve-se abruptamente.
A quietude prolongou-se por alguns instantes até ser interrompida por um ruído metálico e um solavanco. A gaiola começara a subir. Harry voltou-lhe costas.
Depois disto, passaram a chamar-lhe Billy-com-Jesus.


Chegada a última página este livro deixou-me com uma mistura de sentimentos.
Se por um lado não o conseguia largar, e estava sempre curiosa com o que iria acontecer aos mais variados personagens, por outro o tempo livre não era muito.

Com uma narrativa incrível, quer a nível do enredo e cruzamento de personagens de diferentes nacionalidades, desiludiu-me um pouco no final, em que há um salto de três anos e parece que o destino de alguns personagens chave foi contado à pressa. Claro que é apenas o primeiro livro de uma trilogia, mas, depois de todas as emoções da I Guerra Mundial, estava à espera de outro desfecho. Acho que foi o que lhe fez "perder" as 5 estrelas...

O facto de ser um livro com mais de 900 páginas pode, no entanto, ser um factor desencorajador para muitos leitores. Eu aconselho-o! Depois de começarmos a ler, o número de páginas é apenas um pormenor ao qual não ligamos muito. O único problema de ser um "calhau" era transportá-lo na mala para aproveitar todas as oportunidades para devorar mais um bocadinho. 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A Tormenta de Espadas (Crónicas de Gelo e Fogo #5)

O som durou, durou e durou, até parecer que nunca terminaria. Os corvos batiam as asas e guinchavam, voando nas suas gaiolas e esbarrando nas barras, e por todo o acampamento os irmãos da Patrulha da Noite levantavam‑se, vestiam as armaduras, prendiam cintos de espadas, estendiam as mãos para machados de batalha e arcos. Samwell Tarly desatou a tremer, com a cara da mesma cor da neve que caía, rodopiando, a toda a volta.
- Três, - guinchou para Chett - aquilo foram três, ouvi três. Nunca fazem soar três. Há centenas e milhares de anos que não fazem soar três. Três quer dizer…
- …Outros. - Chett soltou um som que era metade gargalhada e metade soluço, e de súbito a roupa de baixo estava molhada, sentia o mijo a escorrer‑lhe pela perna, e via vapor a evaporar‑se da frente das suas bragas.


O que dizer de GRRM que não seja repetir-me? 
Depois de lidos cinco volumes (estou a meio dos livros publicados) continuo cada vez mais viciada nestas Crónicas de Gelo e Fogo e sempre a querer saber mais sobre estas personagens.
Ainda fico surpreendida com o sofrimento implantado e com as descrições dos vários locais por onde vão passando e as batalhas que vão travando.
A luta dos cinco reis pela ocupação do trono de ferro está longe de chegar ao fim, não sendo, por isso, nada fácil de prever quem o irá ocupar no final... 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O Funeral da Nossa Mãe


          A decisão que Carolina tomara afectaria toda a sua vida e, inclusivamente, o momento que escolheria para a sua morte. Enquanto se encaminhava sob o braço da irmã, que já a ultrapassara em altura, para a festa dos Esteves – para festejar o final das suas alegrias – ia mordiscando incessantemente o interior dos lábios. A avó sentara-se com ela na penumbra e aconselhara-lhe coisas impensáveis. Indecentes, imorais. Mas perfeitamente capazes de funcionar. E ela tinha de arriscar tudo, fosse a sua reputação, fosse o modo inocente e honesto como Lourenço a via.
(…)
        A avó dissera-lhe que a mulher é biologicamente talhada para atrair o homem a si. Garantira-lhe que, depois de os lábios dele provarem os dela, ou de a sua mão roçar a calidez das suas coxas, não haveria retorno possível. Ela teria ganho a batalha, se não a guerra. Ainda assim, a ideia de o ludibriar, chamando-o e seduzindo-o, fazia-a envergonhar-se de si própria.
(…)
Ele passou o rosto dela em revista, tentando discernir a sua amiga de infância no interior daqueles olhos claros e tomados de luxúria. (…) Passou em revista as vezes que tinham estado a sós à beira-rio e sentindo-se torturado pelas imagens do corpo dela, sarapintado de gostas de água, a reluzir ao sol. Como é que nunca a vira desse modo? Provavelmente, tinha sido a fantasia dela durante os últimos anos e, se ao menos não tivesse sido tão cego, ter-se-ia apercebido de que ela se transformara numa mulher de beleza singela e formas perfeitamente desejáveis.

Depois de tantas boas opiniões lidas, cedi à curiosidade de pegar neste livro e acabei por conhecer a autora :-) 

Ao folhear as páginas antes de começar a ler, dei-me conta que havia muitas descrições e fiquei um bocadinho de pé atrás. Mas logo nas páginas iniciais tive uma agradável surpresa e as longas descrições tornaram-se facilmente devoráveis e envolventes, facto que se deve à fantástica escrita da Célia.


A história em si não é nada que de um modo ou outro não tenhamos já lido/visto em outros livros ou filmes, mas os segredos que esta família guarda são revelados de um modo que nos mantém em suspense até às últimas linhas e deixa-nos a querer mais. Dei por mim a simpatizar com a Ingrid e a embirrar com a Carolina, a não compreender algumas atitudes da protagonista no seu amor incondicional a Lourenço... 



Gostei muito de conhecer a Vila Flor algures perdida pelo "meu" Alto Alentejo, ali bem perto da minha terra (que também mereceu ser mencionada, ainda que apenas por breves instantes, no início do livro) e que de tão semelhante a qualquer uma daquelas vilas e aldeias traduz um bocadinho de cada uma delas e dos seus habitantes. As pessoas, as casas brancas nas ruas empedradas ou até mesmo o calor desértico que se faz sentir todos os verões...