
Barry Fairbrother não tinha vontade de ir jantar
fora. Aguentara uma enorme dor de cabeça durante grande parte do fim de semana e
debatia se agora com a data limite para entregar um artigo para o jornal
local.
No entanto, a sua mulher mostrara se um pouco
rígida e pouco comunicativa durante o almoço e Barry deduzira que o seu bilhete
de congratulações pelo aniversário de casamento não conseguira mitigar o crime
de se ter trancado no estúdio durante a manhã inteira. Também não ajudara nada
o facto de ter estado a escrever acerca de Krystal, a qual Mary detestava,
embora fingisse o contrário.
«Mary, quero levar te a jantar fora», mentira ele,
para quebrar o gelo. «Dezanove anos, meus filhos! Dezanove anos de casamento e
a vossa mãe nunca pareceu tão bela.»
Mary amansara um pouco e sorrira, e Barry decidira
então telefonar para o clube de golfe, porque ficava ali perto e de certeza
que arranjariam mesa. Tentou agradar à sua mulher com pequenos gestos, porque,
após quase vinte anos de vida juntos, acabara por se aperceber de como a
desiludia frequentemente nas coisas importantes. Nunca o fazia
intencionalmente. Tinham simplesmente noções muito diferentes daquilo que
deveria ocupar mais espaço na vida.
(…)
Foi então que uma dor como nunca sentira lhe
trespassou o cérebro como uma bola de demolição. Mal sentiu a dor nos joelhos quando
embateram no alcatrão frio; o crânio explodia lhe em fogo e sangue; a agonia
era excruciante e para lá de qualquer tolerabilidade, só que tinha de a
tolerar, pois o olvido só o pouparia um minuto depois.
Mary gritou — e continuou a gritar. Vários homens
saíram a correr de dentro do bar. Um deles desatou a correr para dentro do
edifício para ver se algum dos médicos reformados do clube estava presente. Um
casal conhecido de Barry e Mary ouviu a agitação lá de dentro do 13 restaurante,
abandonou as entradas que estava a comer e apressouse para a porta para ver em
que poderia ajudar. O homem ligou para as emergências pelo telemóvel.
A ambulância teve de vir da cidade vizinha de
Yarvil e demorou vinte e cinco minutos a chegar à porta do restaurante. Quando a
luz azul intermitente do giroscópio deslizou sobre aquele cenário, Barry estava
caído inerte no chão, no meio de uma poça do seu próprio vómito; Mary estava
agachada ao seu lado, com os joelhos das calças justas rasgados, a agarrarlhe a
mão, a chorar e a murmurar o nome dele.
It's completely addictive!
Mesmo sabendo que não estava relacionado com o título original, ao pegar no livro pela primeira vez pensei que estava perante um romance policial ou algo do género que envolvesse uma investigação de uma morte que a todos apanhava de surpresa. No entanto, à medida que ia devorando as páginas (sim é mesmo esse o termo), apercebi-me que esta história nada tinha de policial e que a morte de Barry Fairbrother apenas servia de pretexto para J. K. Rowling nos dar a conhecer a pequena cidade de Pagford e os seus habitantes.
Com uma escrita bastante fluída e que nos prende desde as primeiras linhas, somos transportados numa viagem ao quotidiano desta cidade e vamos acompanhando a rotina destas pessoas, os seus relacionamentos e problemas e as intrigas próprias de um local onde todos se conhecem. Não consigo escolher um personagem preferido nem um momento da história que considere crucial, pois até à última página é completamente imprevisível o que vai acontecer a cada uma daquelas pessoas individualmente e à própria cidade mergulhada num conflito antigo.
Depois de me ter conquistado com o seu menino feiticeiro, J.K. não me decepcionou com este livro e mostrou-me um lado diferente. Gostei muito!